Mário Soares, ex-presidente de Portugal, morre aos 92 anos

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O ex-presidente de Portugal, Mário Soares, morreu neste sábado, aos 92 anos. Ele foi uma figura fundamental na transição de Portugal da ditadura para a democracia, e como primeiro-ministro, levou seu país da crise para a União Europeia A sua morte foi anunciada pela agência estatal de notícias Lusa
 
Desde o dia 13 de Dezembro de 2016, Soares esteve em tratamento intensivo no Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa, em Lisboa. Um sobrinho do ex-presidente, Eduardo Barroso, disse que Soares foi hospitalizado em 2013 com encefalite aguda, uma inflamação do cérebro, e que a sua saúde havia se deteriorado ainda mais desde a morte de sua esposa, em julho de 2015.
 
Soares, socialista, era admirado por sua tenacidade e otimismo exuberante. Como primeiro-ministro, ele apostou sua carreira na conquista da adesão de Portugal à UE, considerando-a um caminho para fortalecer a jovem democracia do país, modernizar sua economia e acabar com o isolamento internacional.
 
Muitos portugueses eram céticos, mas Soares persistiu. "Portugal será um país diferente e certamente muito melhor para todos os portugueses", declarou em 1985, depois de ter concluído oito anos de negociações para aderir ao bloco, então conhecido como Comunidade Econômica Europeia.
 
A adesão plena e o acesso ao mercado comum do bloco, iniciado em 1986, traduziram-se numa melhoria significativa dos padrões de vida portugueses. O comércio e o investimento estrangeiro expandiram-se, e Portugal abraçou a moeda do euro. Hoje, o país está ligeiramente abaixo da média europeia em termos de rendimento per capita, mas a diferença com os seus pares mais ricos diminuiu.
 
Filho de um político muitas vezes preso por se opor à ditadura de direita, Soares tornou-se politicamente engajado na Universidade de Lisboa, sendo graduado em filosofia e direito nos anos 50.
 
Sua própria atividade de oposição o colocou na prisão 12 vezes. Durante um destes períodos na prisão, ele se casou com Maria Barroso, uma atriz que conheceu na universidade. Em 1970, foi forçado a pedir exílio na França. Três anos mais tarde, ele, sua esposa e um grupo de amigos se encontraram na Alemanha para fundar o Partido Socialista de Portugal. Ele foi nomeado secretário-geral.
 
Em 25 de abril de 1974, uma revolta militar conhecida como Revolução dos Cravos terminou com 48 anos de ditadura e 13 anos de guerra contra os movimentos de independência nas colônias africanas de Portugal. Três dias depois, Soares voltou a Lisboa em comboio e foi recebido por milhares de simpatizantes, com a esperança de que pudesse ajudar a trazer democracia e prosperidade para o que era então um canto fechado da Europa.
 
Ele foi nomeado ministro das Relações Exteriores no governo recém-instalado, controlado por militares, que estava comprometido com o estabelecimento de um regime democrático. Ele supervisionou a concessão de independência a Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
 
Ele renunciou e entrou em oposição em 1975, depois que uma facção pró-soviética comunista ganhou influência no governo. Eventualmente, uma facção militar moderada apoiada por Soares prevaleceu, bloqueou uma tentativa de golpe apoiada pelo Partido Comunista e convocou eleições em 1976.
 
Soares venceu, tornando-se o primeiro chefe de governo constitucionalmente eleito de Portugal depois da revolução. Ele liderou dois governos até 1979 e um terceiro de 1983 a 1985.
 
Ele assumiu uma economia paralisada por guerras dispendiosas na África, a turbulência política interna e a repentina chegada de pelo menos 500.000 refugiados portugueses de antigas colônias a um país mal preparado para alojá-los e empregá-los.
 
Por duas vezes ele buscou ajuda do Fundo Monetário Internacional para administrar as dívidas, enquanto lutava para construir um estado de bem-estar moderno. Ele abriu o país para a Coca-Cola e outros bens de consumo estrangeiros proibidos sob a ditadura.
 
Mas sua aceitação das prescrições de austeridade do FMI - aumentos de impostos e cortes salariais acentuados, e principalmente o cancelamento de um bônus de Natal para funcionários públicos, em 1983 - o desgastaram politicamente.
 
A coligação governamental de Soares desmoronou logo após o parlamento ratificar o tratado para entrar na Comunidade Econômica Europeia, mas sua imagem de estadista respeitado permaneceu. Ele foi eleito presidente, um cargo em grande parte cerimonial, em 1986, e cumpriu dois mandatos de cinco anos.
 
Ele permaneceu politicamente engajado depois de deixar o cargo e escreveu colunas frequentes para um jornal português, o Diário de Notícias, até 2015.
 
Depois que a Europa mergulhou em recessão em 2008, ele levantou sua voz contra as políticas de austeridade lideradas pela Alemanha impostas às economias mais fracas da zona do euro - políticas semelhantes às que o FMI havia exigido nos anos 80. Em 2011, Portugal foi obrigado a cortar gastos públicos em troca de um resgate de 78 bilhões de euros pelo FMI e pela UE.
 
"Eu não acho que o Estado de bem-estar que os portugueses demoraram tanto para construir deveria ser destruído, como se nós fôssemos um simples servo da troika", disse Soares em um discurso de 2012, referindo-se aos credores internacionais do país.