No Twitter é mais legal 01 - Oscar 2016

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Estamos em 2016 e o Twitter, a rede social que surgiu no final da última década, segue sendo, para mim, a mais interessante, atrativa e divertida opção dentre os sítios de relacionamento que há por aí. 

No site do passarinho azul, é possível encontrar mais facilmente informação de verdade, pois o propósito dos usuários que continuam usando a rede social com frequência está muito mais em informar do que em fofocar. São jornalistas, autores ou bons leitores que o tempo todo nos passam links de textos e/ou vídeos edificantes, informativos ou, vá lá, engraçados, pois outra característica forte do Twitter é preservar o espírito picaresco de ousadia e alegria com muito mais sofisticação do que o humor grosseiro 1.0 que vemos no Facebook ou o chorume deliberado que circula pelos grupos de WhatsApp. Isso sem falar nas redes baseadas puramente em imagens como o Instagram e o descartável Snapchat que são bem legais, mas limitam-se à forma em detrimento do conteúdo. 

Outra vantagem do Twitter em relação ao Facebook, por exemplo, é que lá você só vê o que quer e realmente vê tudo o que as pessoas que escolheu seguir postam. Não existe um algoritmo fazendo escolhas por você. É você quem edita o conteúdo que vai aparecer em sua linha do tempo. Além disso, o formato limitado de 140 carcteres estimula a criatividade ao mesmo tempo em que minimiza a possibilidade de bobagens que um usuário possa dizer, uma vez que os idiotas têm extrema dificuldade em ser sucintos. 

Uma boa oportunidade de testemunhar a superioridade do Twitter sobre as demais redes sociais é em eventos como a exibição do novo episódio de uma série de sucesso, um derradeiro capítulo de novela ou, como ocorreu no último domingo, o Oscar (uma premiação americana que é uma epécie de Troféu Imprensa, mas voltado unicamente para o cinema.). Na Copa do Mundo de 2014, por exemplo, o passarinho azul voou bem mais alto que qualquer um dos seus concorrentes no que tange a relevância das postagens. 

Mas vamos a alguns dos melhores tweets que surgiram em minha TL durante a noite de premiação que consagrou Mad Max e Leonardo Di Caprio. 

01 - BOTANDO ORDEM - O @chinasalada tentou criar regras que elevassem o nível do humor. 

 

02 - TAPETE VERMELHO - Foi dada a largada! E o @haddad_femando gostou da cor do tapete. 

03 - QUER QUE EU DESENHE? - A talentosa @ilustralu, uma celebridade da Internet fez uma arte com suas expectativas para a grande noite. 

 

04 - INFORMAÇÃO - No Twitter, a informação de qualidade marca presença. O correspondente brasileiro em Los Angeles, @rodrigosalem, nos brindou com um artigo bem bacana. 

 

05 - BOTANDO ORDEM 2 - Na mesma noite do Oscar, haveria também episódio novo da série "The Walking Dead" e formação de paredão no BBB. Houve quem quisesse organizar as coisas. 

 

06 - TORCIDA - O pessoal começou a postar seus favoritos para alguns prêmios. 

 

07 - COMENTÁRIOS- As pessoas começaram a fazer suas colocações acerca dos atores e atrizes, como fez o jovem @joaoluisjr. 

 

08 - OSCAR ALHO - As pessoas começaram a fazer suas colocações acerca dos atores e atrizes, como fez o jovem @joaoluisjr. 

 

09 - LEMBRANÇAS - Alguns filmes que não concorreram, os chamados injustiçados, começam a ser lembrados pelo público, como este de Mauro Naves xingando Neto.

 

10- RECORDAR É VIVER - Um dos baratos do Twitter são os retuítes fora de contexto, como estes de Rubens Edwald Filho.

 

11- RESULTADOS - Os resultados da premiação começam a dominar os comentários como este da jornalista @atalija.

 

12- SAGACIDADE - O tweet a seguir está de parabéns. É um exemplo do que a inteligência pode produzir em curtos espaços. 

 
 

13- GLÓRIA DO CINEMA NACIONAL - Foi aí que o fenômeno Glória Pires começou a acontecer. As pessoas que estavam assistindo na Globo davam conta das gafes da atriz. 

 

 

14- AND THE OSCAR GOES TO - No final, os grandes vencedores passaram a dominar as postagens.

 

 

 

15- CABOU-SE O QUE ERA DOCE - A dor do parto é grande, mas sempre temos que partir.

 

7 anos de Novo jornal. É uma honra fazer parte dessa história

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Nesta semana, comemora-se os 7 anos do Novo Jornal. E eu, como um bom menino, colunista disciplinado que nunca falhou com o envio de um texto e colaborador com profundo espírito de equipe e poderoso senso de dever teria que escrever a respeito deste natalício tão importante para a vida da cidade, dos seus partícipes e, por consequência, na minha vida. Porém, contudo, no entanto e todavia, surgiu um fato que não poderia passar sem registro: minha coluna de hoje sai no dia do aniversário da minha mulher. Nesse caso, o Novo Jornal vai ter que me desculpar, chegar um pouquinho de lado e aceitar que dividirá o tema da coluna com aquela com quem decidi compartilhar mais do que palavras, mas a própria vida. 
 
O convite para escrever no Novo Jornal veio em 2010 e foi aceito de imediato, com muita honra. Quando o editor Carlos Magno formulou o convite, disse: “Estamos chamando você porque sabemos que você tem leitores”. Fiquei feliz. E hoje tenho mais leitores ainda, graças ao Novo. Não foi um caminho fácil. Foi preciso muito trabalho antes de ser possível escrever para um veículo impresso que circula todos os dias, que conta com algumas dezenas de profissionais envolvidos em sua elaboração. Esta era uma chancela que havia muito eu perseguia. Porque a Internet tudo aceita, mas um jornal diário carrega consigo toda a bagagem e tradição da imprensa nacional. O que se escreve e se registra numa publicação respeitada tem maior comprometimento do autor para com seus leitores, ainda que aquelas palavras venham a embrulhar pescados no dia seguinte. 
 
Lembro a primeira vez que tentei escrever para um jornal da cidade. Era o texto “Galado”, cometido no ano de 2001, vetado no Diário e no Jornal de Hoje por conter um palavrão. A crônica tinha se espalhado na Internet e eu havia perdido a autoria. O episódio serviu de motivação para que eu publicasse meu primeiro livro, que aliás, acabou resultando numa editora com mais de 130 livros publicados. Curioso saber que, anos depois, foram os livros que me conduziram a um jornal, não o contrário. Ou seja, aquela negativa dos jornais de 2001 acabaram me guiando até o Novo em 2010. Curiosa a lógica da vida. 
 
Ainda como estudante, escrevi em jornais escolares como o “Boca Livre” do Colégio das Neves e o “40 graus”, jornal que circulava em várias escolas. Na faculdade de jornalismo, publiquei na “AZ Revista”, fanzine que me acolheu, capitaneado por Caio Vitoriano, Paulo Celestino, Cristiano Medeiros e George Rodrigo. E, paralelamente à publicação dos 3 primeiros livros, colaborei como colunista do portal Diginet (lembram?). Dessa maneira, fui arregimentando os leitores que motivaram o Novo a me convidar. 
 
Fazendo um paralelo a esta trajetória, em 2010, quando aceitei o convite para escrever no jornal, Nina havia aceitado o meu convite para escrevermos outra história. Estávamos noivos e o casamento que completa 6 anos também este mês rendeu frutos maravilhosos como Isabela, um lar repleto de amor e parcerias várias. Da mesma maneira que eu precisei escrever em vários lugares, publicar 3 livros até merecer o convite para ser colunista do Novo Jornal, Nina também apareceu em minha vida num momento em que eu já cogitava seriamente uma vida de homem solteiro em que bastar-se seria a meta principal de uma vida sozinha, mas feliz. Minha mãe, à época, já nem pedia que eu casasse, mas que eu engravidasse alguém para que ela pudesse ter um neto. Não foi preciso, mãe. Pode ficar sossegada.  
 
Sempre gostei de publicar no Novo Jornal, publicação que, apesar da orientação editorial conservadora e bem à direita, nunca perdeu o espírito “zuêro” e foi capaz de estampar, por exemplo, as charges geniais de Ivan Cabral por tanto tempo, além de dar voz e vez a opiniões dissonantes e plurais, como a de vários dos seus colunistas fixos.  Porque se vocês repararem bem, até os comentaristas de portais de Internet têm vez, representados por um certo colunista ali... mais não digo. 
 
E as manchetes! Ah, as manchetes. Corajosas, cheias de picardia. Lembro de uma em especial, quando a Câmara Municipal criou uma série de problemas para o Prefeito Carlos Eduardo e o Novo mandou ver na capa: “Dor de cabeça grande”. Em outra antológica chamada da série “veneno escorrendo nas páginas”, escreveram um título sobre uma votação na câmara na qual o SINDIPOSTOS era parte interessada e teve o pleito atendido pelos vereadores: “SINDIPOSTOS dá o troco!” Na mesma edição, mais uma pérola, em texto que repercutia o fato de a votação ter sido decidida por um voto: “Foi a conta.” Como não respeitar? 
 
Este mesmo espírito “zuêro”, trabalhado na ousadia e alegria, posso afirmar olhando em perspectiva, é um dos pilares do meu casamento. Vejo tanta gente alardear no Facebook que está em um relacionamento sério com outra pessoa. Eu que não queria estar em um relacionamento sério. Prefiro um compromisso leve, bem-humorado, divertido e que torne a vida leve para ambas as partes. Por fim, acabamos por ser agraciados por uma filha mais gaiata que nós dois juntos e elevamos ao cubo a máxima: “procure um amor que goste de cachorros”.
 
No Novo Jornal, minha relação não é lá de muita seriedade. Muitas vezes, me acusam de ser debochado, de brincar com coisa séria, mas é através do humor que extraio a reflexão, que proponho crítica social, que demonstro o outro lado da ópera bufa que teimamos chamar de vida. 
 
E segue o baile. Um amigo disse outro dia uma expressão que tenho utilizado à exaustão: “sou jovem há mais tempo”. E como todos nós que temos sido jovens há cada vez mais tempo, o Novo Jornal chega a seu sétimo ano de existência. Nina e eu também continuamos a correr (no caso dela, inclusive, literalmente) atrás da realização de objetivos, transformando sonhos em metas e escrevendo nossa trajetória juntos. Fico feliz com o que estamos construindo e pelo momento que vivemos com a certeza de que neste ritmo, ainda que passe muito tempo, seguiremos sendo jovens e é essa alegria, energia e jovialidade que me faz amá-la ainda mais. 
 
Não fique com ciúmes, Novo Jornal. Você também é legal. mas é que Nina deixa todo mundo na poeira. Que bom que você já está acostumado a ser o segundo. 
 

Coluna do Novo Jornal – 020 – Dona Noilde – 08.01.2011

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A última reunião de Dona Noilde

Há pessoas que se destacam de tal forma na vida de uma cidade que acabam por se tornar maiores do que o próprio local onde vivem. Em Natal, isso é bem comum, uma vez que sofremos da eterna privação de pessoas verdadeiramente célebres, que sejam dignas de culto, de justa reverência, de merecidas homenagens. Somos uma cidade marcada pelo signo do “mais-ou-menos”, povoada por uma sociedade zelosa de seus valores frívolos e com um baixíssimo grau de exigência em relação à boa educação, à reputação ilibada e ao comportamento adequado de nossas autoridades, nossa elite e nossos conterrâneos mais, por assim dizer, ilustres.

Tais características só enfatizam sobremaneira o legado deixado por Dona Noilde Ramalho que, certamente, foi uma cidadã acima da média (e assim seria mesmo que a média em nossa província que sonha em ser metrópole fosse alta). Graças ao seu trabalho, sua obra e a atenção que dedicou durante tantos anos à educação em nossa cidade, algo tão negligenciado nessa esquina tropical, Dona Noilde passou a habitar o inconsciente coletivo de todos os natalenses. Virou sinônimo de caráter, fibra e trabalho árduo em prol do ensino de qualidade, a única coisa capaz de nos resgatar das profundezas da ignorância onde invariavelmente nos escondemos. Seu nome pairava no ar e se havia tornado um exemplo de liderança e pioneirismo incontestável.

 

No fim de 2010, no auge dos seus 90 anos, tive o privilégio (e aqui tal palavra é mais do que adequada, mas necessária) de conhecê-la pessoalmente. Ela queria conversar comigo, com a jornalista Graciema Carneiro e o diretor de arte Arnaldo Araújo a respeito da divulgação do centenário da Liga de Ensino do Rio Grande do Norte. A Liga foi fundada por Henrique Castriciano em 1911 com o objetivo de promover o desenvolvimento do nosso Estado por meio da educação. A primeira instituição fundada pela Liga foi a Escola Doméstica, criada para oferecer boa educação às mulheres que, àquela época não recebiam educação formal, sendo, quando eram, educadas em casa. Dona Noilde queria que começássemos pela criação de uma logomarca comemorativa do centenário. Contou-nos toda a história da entidade com invejável domínio e absoluta clareza, ressaltando sua importância e nos dizendo que naquele tempo havia pessoas que se dedicavam ao trabalho voluntário em benefício de uma comunidade ou de uma cidade.

Bem humorada e bastante segura, logo estava batendo papo sobre assuntos diversos que marcaram a história das escolas que dirigia. Falou-nos de Nísia Floresta e da visita que a escola recebeu da professora Constância Duarte, especialista na escritora potiguar. A certa altura, ao ser informada que eu escrevo textos semanais para este jornal, presenteou-me com um livro de crônicas de autoria de ninguém menos que o próprio Henrique Castriciano. Comecei a folhear o livro e percebi a existência de um texto que falava de alguns conterrâneos seus, os natalenses de 100 anos atrás. Chamava-se “Os imbecis”. Fiquei surpreso com 3 coisas: 1º ao saber que já havia imbecis em quantidade na cidade àquela época, 2º ao concluir que tal tipo humano é caracterizado pela longevidade centenária e, principalmente, em conhecer uma crônica de Henrique Castriciano intitulada dessa forma.

Tomado por leve e insensato momento de desenvoltura, comentei com ela: “Dona Noilde, veja esse texto. Chama-se Os Imbecis. Ele tava com raiva de alguém nesse dia.” Ela riu e explicou que o escritor se utilizava de pseudônimos para expressar opiniões mais fortes e contundentes com relação a Natal e seus cidadãos, fato que eu próprio pude comprovar algumas páginas adiante ao ver os textos “Os Imbecis 2” e “Os Imbecis 3”. Não me contive novamente e comentei: “Ô raiva pra durar!”, ao que ela respondeu rindo generosamente mais uma vez.

Dias depois voltamos à Escola Doméstica para apresentar o trabalho encomendado. Na verdade, nesta segunda ocasião, eu não pude ir. Arnaldo e Graciema foram mostrar as 3 opções de logomarca que nós preparamos para ela. Uma delas, a que mais gostávamos, era muitíssimo ousada, cheia de elementos modernos, coloridos, identificados com essa geração Facebook-Restart. Acreditávamos que aquela seria naturalmente descartada, pois ela acabaria optando por uma das outras duas mais sóbrias que levávamos. Até pela cerimônia inerente à ocasião (o centenário de uma instituição importante) era de se esperar que uma alternativa mais clássica fosse escolhida.

No momento em que viu as 3 marcas, porém, ela não teve dúvidas. Disse que queria aquela mais moderna, pois transmitia exatamente o que ela gostaria: “Uma instituição centenária, mas que se atualizou com a sociedade.” Pediu, no entanto, para que utilizássemos uma das outras mais sóbrias para estampar placas e medalhas que serão distribuídas durante o ano para “não chocar demais os mais conservadores”, explicou. Era como se ela nos dissesse: “Essa marca aqui combina mais conosco, que somos jovens.” Com isso, a marca ousada que apresentamos assinará todas as peças de divulgação do centenário da “Liga de Ensino para o Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”.

Após essa reunião, Dona Noilde saiu para almoçar e, naquela mesma tarde, viajou. Acabaria partindo para uma viagem mais longa ainda e não participaria mais de outras reuniões de trabalho. Guardo o livro de Henrique Castriciano com que ela me presenteou com muito carinho e pretendo escrever brevemente uma crônica a respeito da série de textos “Os Imbecis”. Na lembrança guardo também a alegria de ter conhecido pessoalmente alguém que foi sinônimo de vitalidade, dedicação e alvo da mais justa admiração de todos nós. Uma pessoa que merece todo o destaque que teve em vida e continuará tendo sempre, não só por ser uma cidadã acima da média, não apenas por estar acima de todos nós, mas também por estar à frente.

Antonio Prata em Natal

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Corria o ano da graça de 2005, naquele tempo em que amarrávamos cachorro com linguiça e nos comunicávamos de maneira rudimentar, através de um instrumento ancestral aos modernos smartphones chamado PC (Personal Computer) de onde acessávamos uma ferramenta chamada "e-mail" (correio eletrônico), vivíamos o fenômeno incipiente das primeiras redes sociais. Resolvi aderir e entrei pro Orkut. Lá, encontrei pessoas que nunca pensei conhecer. E uma delas era um escritor, autor de dois livros que eu tinha lido em 2003: "As pernas da Tia Corália" e "O inferno atrás da pia". Ele coordenava uma comunidade sobre o escritor Campos de Carvalho de quem eu me havia convertido em fã recentemente. Interagi com ele, falamos um pouco e nos tornamos "amigos virtuais". 

Passou-se o tempo e, um ano depois, lancei meu segundo livro, "É Tudo Mentira!" E, ao conhecer os autores Xico Sá e Marcelino Freire, surgiu a oportunidade de um lançamento coletivo da Jovens Escribas em São Paulo. Convidei o meu amigo virtual e, para minha surpresa,... ele foi! Não só ele, vários outros escritores que eu lia e admirava à época, apareceram. Na ocasião, tiramos esta foto abaixo: 

 

Como demorei uns dias em São Paulo após o lançamento, ele me convidou para seu aniversário, tomamos umas cervejas algumas vezes, quando ele me apresentou outros escritores incríveis como o Chico Mattoso e o João paulo Cuenca. Depois, ele veio a Natal, participou do Encontro de Escritores do Dácio Galvão, demos uns passeios e, enfim, a essa altura, já éramos amigos. Uma grande honra para mim. 

 

O tempo passou mais e mais, ele foi se destacando, ganhando a merecida notoriedade dos que têm talento e fazem as escolhas corretas. Antonio tornou-se um escritor premiado, um roteirista requisitado (que inclusive, concorre a um Emmy em NY, mês que vem) e colunista do domingo da Folha de São Paulo. Mas nunca deixou de ser um cara incrível, generoso, gente boa e amigo dos seus amigos. 

 

Agora, em 2016, 10 anos após aquela primeira vinda a Natal, ele retornará. Passará um dia por aqui no qual vai me dar a honra de lançar um livro juntamente comigo (não, eu não sou co-autor, o livro é dele. Mas também vou lançar meu livro na mesma data e hora). Estou muito feliz em poder revê-lo, em poder proporcionar aos leitores de Natal, especialmente os apreciadores do gênero crônica, um lançamento deste que, para muitos, é um dos melhores cronistas brasileiros da atualidade. aproveito para convidar vocês todos. O lançamento será no Solar Bela Vista, dia 17 de novembro, a partir das 18h.

Quem quiser, pode confirmar presença no evento aberto no www.Facebook.com/jovensescribas: 

https://www.facebook.com/events/1442662229094961/

 

Coluna do Novo Jornal – 016 – Ponta Negra é minha praia – 11.12.2010

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Seguindo a sequência de publicações de colunas do Novo Jornal, mais uma coluna publicada há muito tempo. 

Divirtam-se!

Ponta Negra é minha praia

Foi lançada há pouco, a campanha “Ponta Negra é minha praia”. Uma iniciativa louvável para recuperar a autoestima dos moradores do bairro e dos natalenses em geral que assistiram o nosso principal cartão postal ser degradado pelo trio parada dura Vilma-Carlos Eduardo-Micarla. Aquela que tinha tudo para ser a nossa princesinha do mar, hoje, infelizmente não passa da nossa garotinha de programa do mar. Eu, como orgulhoso morador do bairro (“De dia é Ponta Negra / de noite é Black point.”, como canta o Dusouto) me identifiquei de imediato com a campanha. Colei o adesivo no pára-choque do carro, procurei reunir alguns amigos e ir ao encontro das ondas imediatamente, sempre disposto a cumprir com meu dever de cidadão do bairro, contribuindo civicamente com tão edificante campanha.

 

Aliás, nenhum programa é mais natalense do que ir a Ponta Negra no domingo. É uma tradição cheia de graves rituais que já começam nos preparativos e passam de geração em geração. É preciso dar alguns telefonemas e juntar uns itens básicos: frescobol, toalha, um livro pra quem é de livro e uma prancha pra quem é de surf.

 

No entanto, apesar de meu insistente apelo, alegando o amor pela praia da zona sul, o resgate de hábitos ancestrais e a oportunidade de contemplar mais uma vez o Morro do Careca, nenhum dos meus argumentos foi eloquente  o bastante para convencer meus amigos a me fazerem companhia. Suas escusas me pareceram um tanto alarmistas. Negaram-se, dizendo que o ambiente na zona sul não é nada aprazível para quem nasceu e cresceu em Natal. Teve um que falou inclusive que somos estrangeiros em nossa própria cidade e está cada vez mais insuportável ir a Ponta Negra. Respondi que eles estavam viajando na maionese e decidi ir sozinho de qualquer forma. Não sei de onde eles tiraram tantos disparates. Eu que não daria bola pra essas fofocas. Afinal, Ponta Negra é minha praia.

 

Estacionei muito próximo do mar, a uns 4 quilômetros, bem do lado de um hotel onde havia um congresso da Herbalife. Ao chegar na areia, com toalha em punho, procurei um pedaço de chão onde pudesse sentar-me e tomar um bocado de sol até que o calor acumulado provocasse em meu corpo uma necessidade irresistível, quase magnética, de entrar no mar,  dando início a um incessante movimento pendular entre as ondas e a areia. Porém, não havia chão nenhum que não estivesse ocupado pelos guardassóis e pelas espreguiçadeiras de aluguel. Aliás, havia sim uma faixa livre, por onde corria uma água escura e fétida do calçadão ao mar. Ponderei não sentar ali e acabei alugando uma barraquinha pelo preço módico de R$ 10.

 

Como estava só, levei um livro para me fazer companhia. Instalei-me comodamente e, assim que abri as páginas, um vendedor de artesanatos de durepox veio mostrar sua arte. Agradeci cordialmente, mas quando tentei novamente iniciar a leitura, o homem insistiu que eu examinasse todas as peças escondidas em seu balaio. Tentou até mesmo me convencer que aquelas eram algumas das maiores obras de arte já concebidas pelo homem, comparáveis aos afrescos da Capela Sistina, ao Pensador de Rodin ou à Quinta Sinfonia. Após muito insistir, o Michelângelo de dreadlocks, o Aleijadinho chapado pediu que eu, ao menos, segurasse um dos bonecos por alguns instantes. Assim o fiz, na esperança de que ele partisse depois desta leve concessão. Ledo engano. Declarou que, uma vez que eu havia posto as mãos em sua arte, teria que adquiri-la, pois a havia maculado com o toque de minhas mãos imundas. Tentei recusar, mas ele ameaçou permanecer ali, recusando-se a ir embora. Comprei um velho fumando um cachimbo. E o homem se foi.

 

Respirei aliviado e baixei novamente os olhos para o livro, quando um barulho ensurdecedor se anunciou. Era um vendedor de CDs Piratas curtindo algum desses formidáveis sucessos da Banda Grafith. Não sei se o carrinho do rapaz era patrocinado pelo Centro Auditivo Telex, mas ele parecia realmente disposto a fazer-se ouvir num perímetro que poderia ir de Tabatinga ao mercado da Redinha. Depois, chegaram outros ambulantes como ele, mantendo a combinação de falta de educação com mau gosto musical a estratosféricos decibéis. Dava até pra aferir uma parada de sucessos que ia dos mais sórdidos forrós, passava pelas canções carnatalescas, desembocava em Dire Straits e alcançava o clímax com as piadas de Zé Lezin, o artista teatral preferido da elite natalense. Apesar da barulheira, não me irritei. Ponta Negra é minha praia e é preciso levar na esportiva essa espontânea e efusiva demonstração de alegria explícita, musical e tropical.

 

Arrisquei mais algumas vezes iniciar a leitura, mas era sempre abordado por vendedores de rede, o carrinho do Camarão do Mato Grosso, tatuadores provisórios, palhaços sociais e até por um velho conhecido, um senhor deficiente que, desde que sou criança pede dinheiro para comprar uma nova prótese para a perna, pois a dele está velhinha. Das duas, uma: ou este senhor coleciona pernas a ponto de querer virar uma centopeia humana ou a que ele quer é tão cara que até hoje, 20 anos depois de ter começado a juntar dinheiro, ainda não pode comprar. Logo percebi que seria inútil tentar ler novamente e fui dar um mergulho no Atlântico.

 

A temperatura da água estava ótima. Dizem que são os coliformes fecais que a deixam assim: morninha. Aliás, tive a nítida impressão de ver alguns cardumes de coliformezinhos fecais nadando livremente ao meu redor. Que beleza que é a natureza, né não? Voltando revigorado da água, pude observar com mais atenção um grupo que estava instalado no gaurdassol vizinho ao meu. Eram senhores italianos bem simpáticos, animados, acompanhados de umas mocinhas brasileiras que pareciam ser suas filhas adotivas. Aquilo me comoveu bastante ainda mais quando percebi o carinho com que os homens tratavam as filhinhas. Algumas carícias pareciam até íntimas demais segundo nossa cultura conservadora, mas gostei da atitude caridosa daqueles senhores. E olhe que os italianos são muito discriminados por aqui, pelo visto, injustamente.

 

O sol já ia quase alcançando o zênite, quando resolvi ir embora. Saí poucos instantes antes de uma dupla de violeiros chegar a minha barraca, vendendo emboladas. Uma pena. Perdi essa, mas tinha que ir. Estava tarde. É sempre uma pena ir embora dali. Porque Ponta Negra é minha, é nossa. E ainda tem gente que não gosta. 

Não contém glúten!

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Não contém glúten!

Há um novo tipo de homem por aí. Uma nova espécie de metrossexual que só come alimentos saudáveis, produtos light, diet, sem glúten ou lactose. Os antropólogos ainda não se deram conta, os sociólogos também não, os psicólogos talvez. Nem mesmo o Xico Sá percebeu ainda este novo homem ainda não catalogado, este Cristiano Ronaldo tomador de shake, aminoácidos e derivados do açaí. Este amigo do espelho que trocou o creme para cotovelos por batom de manteiga e cacau para não ressecar os lábios durante a malhação e o gel nos cabelos por gel de vaselina a fim de evitar assaduras durante a corrida.

Este novo homem que anda por aí, co-habitando este planeta, respirando o mesmo ar que nós, homo-sapiens convencionais (mais ofegantes, algumas vezes), frequentando os mesmos lugares (principalmente academias, seções de hortifrúti e farmácias) e comunicando-se numa linguagem humana, apesar de repleta de neologismos de origem incerta, como whey, amino, isotônico, e todo um vocabulário baseado no consumo de substâncias revigorantes e potencializadoras de desempenho.

Este novo humanoide ainda não registrado tem causado controvérsia entre os que já notaram sua chegada. Não se sabe se é um novo degrau na escala evolutiva ou um ponto fora da curva, um escorregão, uma mutação que não se safará da implacável seleção natural, comandada pela única lei que não se revoga: a da natureza. A questão é que este novo modelo de ser humano (que muitas vezes, faz bico de modelo mesmo) está aí para quem quiser ver, desfilando seu corpo sarado e suado, tomando açaí pra dar mais energia e soltando puns com essência de clara de ovo, oriundos do grande volume de Albumix ingerido.

É o chamado de “Homem Glúten”, que recebeu esta alcunha, aliás, exatamente por NÃO ingerir nada que contenha glúten, seja lá o que seja esta tão falada, mas pouco conhecida substância, elemento fundamental do vocabulário alimentar atual e componente indispensável à paranoia saudável que surge poderosa e irrefreável diante da vida moderna.

O “Homem Glúten” não come glúten, mas não só isso. Há toda uma infinidade de itens a serem evitados pelo seu código de conduta moral cujo restrito cardápio permite pouquíssimos alimentos, uma vez que há uma extensa lista de proibições. A lactose, por exemplo, é outra séria limitação autoimposta por este obstinado adepto da prática desportiva e da pureza, que vai do ascetismo ao atletismo, rápido e desenvolto.

Amante da leitura, o “Homem Glúten e Lactose” aprecia uma literatura bem específica: não perde um rótulo de produto ou composição clórico-protéica de embalagem. Também procura consumir produtos com baixo índice de gordura, temperados frugalmente e consome tanto peito de frango que dá pra sustentar toda a cadeia produtiva da avicultura por várias gerações.

Está sempre pesquisando as novidades. Novas marcas de produtos, a torrada integral sem adição de amido, o biscoito de arroz integral sem sabor de nada, o suco verde de clorofila com abacaxi, hortelã e vagem, ou a banana desidratada que vai muito bem com o iogurte ateniense sem gosto de iogurte. Tudo muito nutritivo e incontestavelmente saudável. Porém, com a mesma emoção de dançar lambada com a irmã.

E por falar em “integral”, esta é uma palavra bastante em moda e quase obrigatória nas refeições livres de glúten, lactose ou sabor. O arroz, o macarrão, o pão, os biscoitos e até a pizza têm que ser tão íntegros que deveriam apresentar currículos comprovando idoneidade antes da ingestão. Os temperos passam a receber atenção especial. Os cozinheiros e chefs costumam ser consultados sobre modos de preparo de alguns pratos, em perguntas cheias de curiosidade, pedindo detalhes pormenorizados e minúcias de investigador da polícia civil.

O metrossexual alimentar também curte um bom par de tênis com amortecedores especiais e mais cores que a escala Pantone e os quadros do Romero Brito juntos. Também aprecia uma blusa que valorize o volume peitoral e evidencie seus bíceps, carinhosamente esculpidos em seguidas séries de levantamento de barras. Sem falar na profunda emoção que sente ao entrar numa sala cheia de espelhos.

O contrário do “Homem Glúten e Lactose” é aquele que “Come de Tudo”, o equivalente ao machão do mundo alimentar, aquele que traça uma macarronada a qualquer hora do dia, que se amarra numa carne vermelha e que devora arroz, feijão e ovo frito com gema e tudo (mole, faz favor). Este herói, destemido e inconsequente, é um homem à moda antiga, que não sabe o que é glúten, que toma leite, come hambúrguer e se esbalda numa panelada, churrascada, caldeirada ou rabada. Este comportamento nada seletivo deixa o “Homem Glúten e Lactose” fora de si. Ele simplesmente não entende como alguém pode agir assim em pleno século 21 com tanta informação disponível a respeito do que se pode e o que não se pode comer. Ao ver um “Homem que Come de Tudo” devorar uma picanha mal passada, ele faz cara de nojinho, torce a boca e declara solenemente: “Eca!”

Se for confirmado que o “Homem Glúten e Lactose” veio pra ficar, é possível que todos nós que insistimos em nos alimentar de forma, digamos, rudimentar (para não dizer primitiva) sejamos descontinuados pela seleção natural. Como um automóvel que sai de linha ou um aparelho tecnológico obsoleto. Seremos eliminados, como um dia foram nossos antepassados das cavernas para dar origem a versões mais modernas e melhores de primatas: nós. Agora, seria a vez do Homo Saudabilis, este previdente e novo ser humano a nos tirar de circulação. 

Bem, se for esta a vontade da natureza, que seja! Que se há de fazer? Mas que seria uma tremenda injustiça, além de uma enorme contradição, não há como negar. Porque o “Homem que Come de Tudo” é muito mais versátil e, em tese, teria maiores chances de sair vivo em tempos de privações extremas e catástrofes de grandes proporções. Ou você acha que, no caso de uma tragédia natural, a gente não precisaria de uma maior variedade de repertório, tendo de comer a primeira coisa que surgisse em nossa frente? À base de barrinha de cereal é que a gente não ficaria. 

Mas tudo isso é especulação. Não se sabe se ele veio pra ficar, se vai tomar o nosso lugar, se vai seguir em frente ou desaparecer. Seja lá para onde for, só há uma certeza: ele vai correndo. Só deve parar um bocadinho se encontrar um espelho ou uma loja Mundo Verde pelo caminho.