Discriminação, sofrimento e insalubridade marcam rotina de coveiros em Natal

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Aos 23 anos, Yago Luan tem gostos bem comuns para jovens de sua idade. Nas horas vagas, por exemplo, gosta de ir a festas, tomar cerveja e jogar bola com os amigos. Um perfil que passaria despercebido para muitos, não fosse o ofício que ele exerce. “Sou coveiro. Isso mesmo: coveiro”, conta, com satisfação, cada vez que precisa confirmar o que faz ao se apresentar para alguém.

Há dois anos Yago divide sua rotina entre a vivacidade de um jovem comum e o seu trabalho, considerado estranho para muitos, no Cemitério Municipal do Alecrim, em Natal. Sua jornada de trabalho e dos cerca de quarenta coveiros que segundo a Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) trabalham nos oito cemitérios públicos da capital potiguar é bem parecida: "A gente nunca sabe o que nos espera para mais um dia de trabalho", explica.

No dia em que o NOVO Jornal acompanhou a rotina dos coveiros, o expediente foi considerado intenso por eles. Dois sepultamentos seguidos estavam programados e uma exumação precisou ser feita minutos antes de o caixão ser enterrado. Yago e mais um coveiro, Sidney Ferreira, de 45 anos, se alternavam no trabalho.

Com o calor daquela manhã abafada, Sidney transpira como se alguém estivesse jogando água em seu rosto. Ele usa uniforme completo cedido pela Semsur: luvas e botas de borracha e chapéu para proteger do sol. De dentro do túmulo, ele orienta Yago para ajudá-lo na exumação. O jovem coveiro não tem luvas, mas usa botas, uniforme e um boné pessoal.

Yago aconselha os familiares que já velam o corpo a esperarem um pouco na capela do cemitério enquanto o procedimento é feito às pressas. “Como antes de fazer o sepultamento vamos exumar o corpo de um dos familiares enterrados, é melhor que os parentes esperem em outro lugar porque muitos já estão fragilizados com a perda e podem se sensibilizar ainda mais ao ver a exumação de outro conhecido”, explica cauteloso.

Assim que o cortejo se afasta, Sidney retira os restos em decomposição do caixão, dos ossos e da roupa de um dos seis parentes que já haviam sido enterrados naquela mesma sepultura. Após cuidadoso garimpo feito pelos coveiros, os ossos são guardados em um novo saco.

“O procedimento normal é esse. Depois, um de nós entra novamente na cova e o outro fica do lado de fora, segura o caixão e vai nivelando até baixar completamente. Os sacos com as exumações dos outros parentes entram depois, em cima do caixão”, explica Yago.

Enquanto a reportagem acompanha, timidamente, o trabalho dos coveiros, Marinaldo, amigo da família enlutada, se aproxima e parece estar admirado com o serviço deles. Interessado ao saber o motivo da nossa presença ali e apesar do momento delicado, ele faz questão de dar sua opinião. “A nossa sensibilidade é grande nesse momento, mas reconhecemos que esses profissionais não são bem vistos pela sociedade. Olha só (aponta para Yago): falta luva, falta máscara e ainda assim eles são cuidadosos, foram sensíveis com a família”, reconhece. Ele garante ainda que a conduta dos sepultadores torna o momento mais confortável. 

Yago se apressa para atender a próxima família. Esperamos Sidney terminar de fechar o jazigo antes de acompanhar o sepultamento seguinte, já em andamento. Atencioso, mesmo enquanto trabalha, ele revela: “Quem não tem coragem para o trabalho desiste mesmo. Não é qualquer um que entra em um túmulo desse. Muitos coveiros estão largando a profissão devido aos baixos salários. Isso desanima. Nosso trabalho é importante. Tem gente que faz muito menos e ganha muito mais”.

Às 10h, os dois sepultamentos estão finalizados. Enquanto caminhamos para a administração do cemitério, Yago fala sobre a profissão. “Não que eu goste de lidar com o sofrimento das pessoas, mas me acostumei e procuro ser o melhor profissional possível. Desde o dia que precisei cavar a cova da minha avó, faço cada sepultamento como se fosse pra alguém da minha família”, conta, orgulhoso, depois de uma manhã cheia.

 

 

ENFRENTANDO O PRECONCEITO

“Eu não tenho vergonha de ser coveiro. Tenho orgulho porque minha profissão é digna e todo mundo precisará dela um dia. Ninguém está livre de passar por isso. Mas, o lado ruim é a discriminação. A sociedade criou um padrão do que é bom ou não, mesmo sem saber como é o nosso trabalho”, desabafa Yago.

“No início, até eu tenho um certo bloqueio. Já cheguei em alguns lugares em que todo mundo tirava onda, chamando minha namorada de mulher do coveiro, por exemplo”, conta, sem disfarçar o tom de chacota que faz de si mesmo. “Isso eu até levo na brincadeira. Mas, tem casos que eu acho que o povo não se prepara para a morte e acha que a culpa é do coveiro”, acrescenta.  

Sidney, concursado há cinco anos, também reclama. “Minha família me apoiou desde o início e aceitou porque sabia que o concurso ia trazer estabilidade. Mas, muita gente discrimina. A gente encosta nas pessoas e elas já ficam desconfiadas”.

Para Ewerton Silva, que decidiu ser coveiro aos 19 anos quando fez e passou em um concurso, vencer o preconceito da mãe foi o mais difícil. “Ela não queria que eu assumisse a vaga. ‘Não criei um filho pra ser coveiro’, dizia. Mas, perguntei a minha noiva se ela se casaria com um e ela disse que sim”, lembra ele, hoje aos 28 anos.

 

 

 

“Trabalhos que envolvem esforço físico tendem a ser mal vistos pelas pessoas. Muitos acham que quem trabalha com isso é porque não tem estudo ou são semi-analfabetos. Mas, classificar alguém pelo trabalho é muito limitante. Uma pessoa é muito mais do que aquilo que ela faz no seu cotidiano”, desabafa Ewerton, que quer fazer Letras com habilitação em Inglês ainda esse ano.

Assim como Yago, ele também não pensa em mudar de profissão. “Ainda assim, se pudesse conciliar com algo de que eu gosto, trabalharia com cozinha. Mas, sei que não vai dar certo porque as pessoas poderiam rejeitar uma comida feita por um coveiro”, desanima.  

 

Trabalho sem glória

“A gente nunca está satisfeito, afinal as pessoas não querem precisar do nosso trabalho. Não podemos desejar um ‘até logo’ e o cliente nunca sai satisfeito. Mas, a gente tenta fazer o trabalho de uma maneira que torne esse momento o mais prático e breve possível. Temos cuidado até com o vocabulário. Palavras como ‘defunto’ e ‘fedor’, por exemplo, são proibidas. A gente precisa ter sensibilidade para não causar constrangimento”, explica Ewerton.

Já para Sidney, as dificuldades da profissão vão além da satisfação do cliente. “Nosso salário é uma merreca e a gente precisa ficar se humilhando por gratificações”, afirma. Ele lembra ainda que o ambiente de trabalho insalubre é propício ao risco de contaminações, principalmente pelo necrochorume (líquido resultante da decomposição dos corpos) e que em alguns casos os equipamentos de proteção não são suficientes para todos. 

“Às vezes mandam uma máscara para três coveiros. Isso é falta de higiene”, assegura. Quando questionado se o material não deveria ser descartável, ele responde: “As descartáveis a gente compra”.

E não é só. Sobre os riscos de acidentes ele continua: “Ainda tem o risco de a placa das gavetas dos jazigos cair no nosso pé como já aconteceu, nos cortarmos com os mármores dos túmulos, escorregar na cova e também sofrermos picadas de escorpiões, comuns por aqui”.

Há um ano na administração do cemitério, Aelson Júnior relata que onze pessoas trabalham lá, sendo três coveiros e outros dois funcionários concursados da Prefeitura de Natal. Os demais são terceirizados. “O terceirizado é qualquer coisa que o cemitério precisar, não só coveiro”, explica Aelson.

“Lógico que eles precisam ter mais respaldo, mas isso não pode ser resolvido de uma hora para outra. Quando os equipamentos estão desgastados, a gente solicita novos. Mas, cada coveiro tem o seu e é responsável pela higienização”, se justifica.

Segundo o Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio, Conservação, Higienização e Limpeza do Rio Grande do Norte (Sindlimp), não é só no Cemitério do Alecrim que os coveiros enfrentam dificuldades. Em todos os públicos atendidos pelo Sindicato, onde trabalham atualmente 31 concursados e 33 terceirizados, os coveiros têm algum tipo de dificuldade.

“Fazemos fiscalizações rotineiras, mas também recebemos muitas denúncias. A maior parte, anônima. Dificilmente alguém se identifica. Apesar de sempre orientarmos que qualquer tentativa de represália (desde mudanças na jornada de trabalho e ameaça de transferências a demissões injustificadas) é crime de assédio moral e deve ser comunicada”, afirma Edivan Ribeiro, secretário do Sindlimp.

Problemas como falta de pessoal e de equipamentos de proteção individual (EPI) estão no topo do ranking de reclamações do sindicato. Edvan relata que, em alguns cemitérios, dois coveiros enfrentam a rotina de até seis sepultamentos por dia e em outros, a reposição dos EPIs é ineficiente.

 

 Secretaria retruca trabalhadores

Kelyton Gama, diretor de cemitérios da Semsur, afirma que os materiais dos coveiros concursados são disponibilizados conforme a necessidade ou a cada três ou seis meses, dependendo do tempo de durabilidade de alguns equipamentos. Segundo ele, são entregues três tipos de luvas,óculos de proteção, máscaras respiradoras valvuladas, botas, protetor solar, chapéu para proteger do sol e uniforme. Ele confirmou ainda ser de responsabilidade dos coveiros a higienização do material e desconhece a informação de que falte equipamentos ou que uma máscara seja entregue para três coveiros. 

“Não procede até porque nós temos sobrando. Inclusive, tenho até algumas dessas máscaras no carro da Semsur que acompanha diariamente a rotina dos cemitérios. Se isso aconteceu, não foi na gestão atual do prefeito Carlos Eduardo. Mas, o material fica aqui no setor e nós entregamos conforme a demanda”, diz. “Se a gente deixa lá eles usam a mais, estragando. Já aos terceirizados, o empregador é quem fornece os equipamentos. A Semsur só monitora. Mas, uma parte do material também fica conosco”, explica.  

Procurada pela reportagem, a S.S Empreendimentos e Serviços LTDA, empresa que terceiriza os funcionários para a Prefeitura, não se pronunciou sobre o assunto.

A explicação da Semsur para as possíveis faltas de equipamentos é a relutância dos coveiros. “O que é habitual acontecer é fornecer e eles não utilizarem. Já fizemos palestras de vigilância ambiental e conscientização com os funcionários em fevereiro. Estamos programando outra para maio”, diz Kelyton.

 

OLHAR TÉCNICO

Pedro Câncio, engenheiro, professor e higienista ocupacional certificado, lembra que a máscara respiradora pode até ser utilizada por duas vezes, mas é descartável. “Usar a mesma por mais de uma semana e por mais de um trabalhador é totalmente absurdo. Já as luvas e botas podem ser reutilizadas, desde que sejam higienizadas. Mas, o empregador é responsável pela higienização” explica.

Pedro ressalta ainda que os EPIs devem ficar no local de trabalho, a menos que haja um acordo entre os trabalhadores e o empregador. No entanto, conforme a norma regulamentadora que orienta o uso de equipamentos de segurança do trabalho, a NR6, cabe a empresa se responsabilizar pela higienização e manutenção periódica dos equipamentos.

Em alguns casos relatados, como não há limpeza das luvas não-descartáveis após o contato com a massa corporal em decomposição, comum durante uma exumação, o funcionário acaba descartando-as. Essa prática acaba sendo caracterizada desperdício de material e a solução encontrada pelos coveiros é comprar luvas cirúrgicas descartáveis. 

 

 

 

Em outros, a falta de máscaras combinada à exumação de cadáveres ainda em estado de decomposição mesmo após o período de dois anos recomendado para o procedimento (o processo é mais lento quando a pessoa toma muitos antibióticos em vida, por exemplo), submete os exumadores trabalharem sob o efeito do álcool ou ainda a disfarçarem o cheiro fumando vários cigarros ao mesmo tempo.

 

‘Não há mérito na insalubridade’

Segundo o Sindlimp, a luta mais recente do sindicato foi “a conquista do adicional de 40% (ou grau máximo) de insalubridade para a categoria, dado sobre o salário mínimo”, apesar da Semsur admitir que alguns funcionários concursados ainda não o recebem. Kelyton explica que o aditivo bate com o limite de gastos do município, mas já há um processo administrativo em andamento.

O professor do Instituto Federal de Ciências e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) e engenheiro de segurança do trabalho, Cleber Lucena, rebate a conquista: “Não há mérito na insalubridade. Ela deve ter caráter pedagógico para o empregador, para ele entender que o ambiente de trabalho tem problemas e procurar soluções para melhorá-lo”.

 

 

 

“Mas, funciona de maneira contrária. Ele paga o adicional e acha que está tudo bem. É como se houvesse a compra da saúde do trabalhador” avalia Pedro Câncio.

Os dois reconhecem que a discussão é antiga. “Nós, prevencionistas, lutamos para que não haja insalubridade, mas que o trabalho seja seguro. Nossa missão é que o ambiente seja salubre”. “Apesar do adicional fazer diferença no salário do trabalhador, ao longo do tempo a saúde prejudicada não compensa”.

Já sobre os equipamentos de proteção individual, Cleber ressalta que eles são a última linha de defesa para a saúde do trabalhador e que antes devem ser adotadas medidas de ordem administrativa - como o controle e redução do tempo de exposição do trabalhador aos agentes patológicos -, e medidas de ordem coletiva para proteger todo o ambiente de trabalho, com projetos de engenharia, por exemplo. “Só então se apela à proteção individual”, diz.

“As medidas de controle coletivo, apesar de mais eficientes, são mais caras que o EPI e o empresário acaba invertendo essa ordem. Dá o EPI e paga o adicional de insalubridade primeiro, ignorando as outras possibilidades. Mas, vale lembrar que eles reduzem o dano, não a insalubridade. O ambiente continua sendo perigoso para o trabalhador”, afirma Pedro.

  

Legislação defasada

Um dos grandes problemas da legislação, segundo o olhar dos técnicos, é a defasagem. O documento que regula as questões da insalubridade, é de 1978 e não sofre atualizações consistentes desde então. No entanto, há muitos agentes que nem eram conhecidos há trinta anos mas que comprovadamente causam prejuízos ao trabalhador e passam despercebidos pela Norma Regulamentadora 15.

Outro exemplo é que a Constituição vigente veda qualquer conjuntura atrelada ao salário mínimo, mas na NR15, feita antes de 1988, o percentual de insalubridade é calculado por ele. “É uma polêmica e geralmente termina em uma causa trabalhistas porque a classe dos empresários se baseia na norma regulamentadora e os trabalhadores na Constituição”, explica Pedro.

Ainda na análise dos profissionais, outro fator que contribui para a precarização do trabalho é a terceirização.“Nós acreditamos ser o câncer da segurança do trabalhador. O terceirizado acaba sendo descartável porque muitas vezes quem contrata a empresa não se preocupa com o trabalhador e sim com o contrato”, opina Cleber.

“Há também a questão psicológica, que nós da engenharia não podemos mensurar. Afinal, trabalhar com a dor de outras pessoas exige uma preparação muito maior”, lembra o higienista ocupacional.

 

A MORTE MANDA RECADO

Ao acompanhar a rotina dos coveiros, o som do choro de familiares (ainda que desconhecidos para nós) e os cantos religiosos que misturavam o consolo divino e a desolação da perda foram momentos marcantes para a reportagem.

Ver de perto o sofrimento das pessoas sem se abalar, no entanto, é algo que os coveiros confessam ser a prova de fogo da profissão. Há um período de choque, mas depois vem a adaptação. Ainda assim, eles revelam que é impossível não se envolver psicologicamente em alguns casos.

“Meu primeiro sepultamento foi de uma criança e, como tenho um irmão pequeno, é inevitável não passar um filme pela sua cabeça e se comover com a dor”, lembra Yago a experiência do seu primeiro dia de trabalho.

“Certa vez realizei o sepultamento de uma senhora no dia das mães. Foi bem triste porque esse é um dia que ninguém quer enterrar a própria mãe. Mas, a morte não escolhe data”, recorda Ewerton.

Para Josivaldo Lira e Everaldo Araújo, ambos com  47 anos, a adaptação psicológica ao trabalho no cemitério particular Morada da Paz, em Natal, foi mais fácil. Considerado de alto padrão, ele é cercado por grandes árvores e não há túmulos expostos, como nos públicos. Sob a terra e cobertos por um gramado impecavelmente verde, cada jazigo é identificado apenas por uma pequena placa de mármore padronizada.   

 

 

 

“O ambiente aqui é como um parque e ajuda a gente a se acostumar”, afirma Josivaldo, que garante nunca ter tido problemas para aceitar a profissão. Everaldo atribui a fácil habituação, tanto dele como dos enlutados, às maneiras de humanização utilizadas pela empresa que trabalha (como a mudança dos termos populares ‘caixão’, ‘coveiro’ e ‘cova’ para ‘urna’, ‘sepultador’ e ‘jazigo’)  e a tranquilidade do local. Ele descarta ainda a possibilidade de trabalhar em um cemitério público. “Não que aqui não haja sofrimento, mas lá o ambiente contribuiu bastante com o aumento da sensibilidade e dor das pessoas”, sugere.

Ewerton vai além. Para ele a profissão mostrou uma nova maneira de pensar na vida. “Quando vim trabalhar no Cemitério do Alecrim, me dei conta de que vou morrer um dia. Quando a gente sepulta alguém, penso que um dia serei eu e que pessoas do meu convívio chorarão. É como se todo dia eu tivesse um aviso de que sou mortal. Acaba que a gente aprende a fazer algo com o nosso tempo útil” conclui.